
Estava assistindo esta matéria no Today Show de hoje e comecei a relembrar os meus tempos de escola.
Na época do primeiro grau eu algumas vezes fui vítima do que hoje é conhecido por bullying. Eu era meio quietão, gordinho, sempre fui mais alto que a maioria das outras crianças, gostava de quadrinhos, desenho animado, colecionar figurinhas e outras coisas que hoje são nerdices que fazem o cara ser cool. No meu tempo só te colocavam no hall dos bobões da turma.
Enquanto os fodalhões (©Cardoso) da turma só falavam de festinhas, cabulavam aula pra ir ao cinema e outras coisas legais, eu batia altos papos sobre livros, desenhos, filmes, e outras coisas que faziam parte do pequeno universo da minha turma de bobões.
A questão é que, naquela época eu nunca liguei muito pra isso, assim como meus amigos, que também eram vítimas de certas brincadeiras, alguns até mais frequentemente do que outros.
Nós usávamos a tática do “se ignorar eles param” e isso sempre pareceu funcionar bem. Obviamente sempre havia algum chato mais insistente, mas no final do primeiro grau eu já não era tão bobão e, como eu disse antes, sempre fui maior que a maioria das outras crianças, então alguns sopapos acabaram por resolver essa questão dos demasiadamente insistentes.
Aparentemente hoje em dia essa tática de ignorar insultos e deixar falar quem quiser falar não funciona. Todos os dias os jornais estão trazendo alguma matéria falando sobre alguém que foi vitima do bullying. Crianças que são agredidas verbal e fisicamente ao ponto de não conseguirem mais frequentar as aulas, casos indo parar na policia, e etc.
Nem vou comentar o fato dos malucos que costumam invadir escolas para dar cabo daqueles que consideram culpados por seus transtornos porque acredito que nesses casos existem outros fatores mais sérios do que a própria questão do bullying.
No segundo grau a minha vida escolar foi diferente, fui para uma escola particular renomada, que tinha meio que um clima das escolas americanas que costumamos ver nos filmes. As tribos eram bem definidas. Haviam os nerds, a turminha do teatro, os atletas, onde acabei me inserindo porque jogava basquete no time do colégio, e a turma dos “normais”. Mas fora algumas raras exceções, não havia esse clima de provocações constantes que aparentemente existe hoje.
As turmas diferentes se misturavam tranquilamente sem grandes complicações. Obviamente que cada um costumava passar mais tempo com as pessoas do grupo com o qual se identificava mais, mas em geral não haviam barreiras. E quando acontecia algum caso de alguém começar a pegar no pé de outra pessoa fazendo alguma provocação relacionada ao grupo social ou a alguma característica desta pessoa, normalmente era o provocador que acabava excluído. Porque ninguém via muito sentido em provocar outro aluno só porque ele era diferente. Aparentemente a coisa mais estranha para a maioria de nós era exatamente a intolerância.
O principal fator à que atribuo esse nosso comportamento era o fato de que toda turma de novos alunos recém chegados à escola, era submetida à uma espécie de dinâmica de grupo. Nos primeiros dias de aula os alunos de uma classe eram reunidos no teatro para se apresentarem uns aos outros, para falarem um pouco de si, e para participar de brincadeiras que visavam integrar as pessoas daquele grupo. Alunos veteranos também costumavam participar e também era responsáveis por levar os novatos para conhecer as dependências da escola (que era gigantesca), e para explicar as normas de comportamento e os procedimentos da escola.
Tudo isso servia para aproximar as pessoas e acabava por criar um clima que fazia todos se sentirem a vontade, e tornava o ambiente escolar mais agradável. Evitava panelinhas de classe, de veteranos que não se misturam com novatos e afins.
A escola estimulava atividades que misturavam alunos de classes e séries diferentes, como campeonatos esportivos, teatro, festivais de música, e também as festas. Pelo menos duas vezes por ano a escola liberava algum dos seus salões de eventos para que os alunos organizassem uma festa. Ficava tudo por nossa conta, e a escola se limitava apenas a fiscalizar a questão das bebidas, que obviamente sempre foi brilhantemente contornada por nós.
Não era uma perfeição de sistema, mas parecia funcionar muito bem, e eu nunca presenciei nada extremo como as coisas que vemos hoje.
Talvez as escolas de hoje estejam falhando na promoção dessa integração entre seus alunos. Hoje em dia fala-se muito sobre respeitar a individualidade, que é sim uma coisa importante, mas não em detrimento da coletividade. Os alunos devem ser estimulados a interagir e a respeitar seus colegas, e a enxerga-los como iguais, encarar o outro como alguém que está compartilhando com ele a experiência escolar.
Se um aluno se mostra intolerante por qualquer motivo que seja, a escola deve agir de imediato. Buscar soluções junto a família e, principalmente, deixar claro que aquele comportamento não será aceito.
Uma coisa que acho curiosa hoje é essa regra de não expulsar aluno. Essa não deve ser a primeira opção da escola, mas também não pode ser a ultima. A escola não pode querer consertar a falta de princípios de uma pessoa. Isso é trabalho para os pais. A escola deve proporcionar um ambiente que valorize os bons exemplos, mas se o aluno não mostrar disposição em segui-los, o compromisso da escola deve ser com aqueles que se integram e se comportam de forma civilizada. Expulsar e deixar a responsabilidade para quem é verdadeiramente responsável, neste caso, é zelar por aqueles que seguem os padrões sociais adequados.
Os especialistas em educação de hoje dão nome para tudo, querem resolver tudo com uma boa conversa, falam que não se deve vilanizar os alunos problemáticos, mas eu acho que é o excesso dessa boa vontade toda que está comprometendo a coletividade.
Crianças estão sofrendo violências, professores estão sofrendo violências, e essas questões são tratadas como se ninguém fosse culpado. Em minha opinião isso está errado. Pais são responsáveis pelo comportamento de seus filhos, e as escolas são culpadas por não protegerem seus alunos de indivíduos de comportamento inadequado.
Essa mania de achar que o fato de ser criança exime o individuo de ter que arcar com as consequências de seus atos não pode estar certa. Crianças devem sim aprender desde cedo que seus atos vão gerar consequências, e que algumas delas podem ser bem graves. Uma criança sem limites se torna um adulto sem limites se o seu comportamento não for corrigido. Os jornais trazem diariamente as consequências do comportamento desse tipo de pessoa.
Acredito que está faltando no mínimo uma norma de segurança básica e padronizada para proteger os alunos e professores de sofrerem algum tipo de violência dentro das escolas. Cada caso é um caso? Sim, mas alguma norma geral deve existir para forçar as escolas a tomarem providências quando o problema surgir, e a partir daí aplicar a solução mais adequada.
Eu não sei se esse assunto hoje está tão em evidência pelo fato de que lhe atribuíram um nome, se é porque as crianças de hoje são mais sensíveis do que na minha época, ou se é porque as provocações feitas hoje em dia são mais graves do que costumavam ser. Só sei que aparentemente a questão não está sendo tratada com a gravidade com que se apresenta. Pois hoje vemos professores de qualidade abandonando a carreira por medo de entrar na sala de aula, vemos crianças deixando de ir a escola por medo de serem agredidas, e vemos aqueles que praticam a violência sendo tratados como coitadinhos inocentes.
Há que tipo de futuro isso nos levará?